19 de mar de 2009

Iron Maiden: mais uma lição de Heavy Metal no Brasil

Assim como foi em sua última passagem por São Paulo, o Iron Maiden fez mais uma memorável apresentação em território brasileiro. O grupo britânico não poupou esforços para satisfazer a ávida platéia, que sofreu nas mãos de uma organização falha, uma tempestade monstruosa e um lamaçal gigante. Sem contar o trânsito caótico e outros inúmeros problemas. Na verdade, todas essas dificuldades foram apenas ingredientes para tornar a noite de 15 de março de 2009 em mais um inesquecível espetáculo proporcionado por Bruce Dickinson (vocal), Steve Harris (baixista), os três guitarristas Dave Murray, Adrian Smith e Janick Gers, e Nicko McBrain (baterista).

Desde as primeiras horas da manhã, fãs das mais diversas partes do Estado de São Paulo e de outras regiões do País invadiram as ruas adjacentes ao Autódromo de Interlagos na ansiedade para mais um grande show do grupo britânico. Mal sabiam eles o que os aguardava...

Entrei no local do evento por volta do meio-dia. Mesmo com sol a pino, tomei coragem e fui ver como estavam os preparativos para a montagem do belo cenário do Iron Maiden. Quando olhei para o palco, meu primeiro susto: o cenário estava praticamente pelado. Apenas as laterais davam o ar egípcio da Somewhere Back in Time Tour. Havia equipamentos espalhados por todos os lados, a bateria de Nicko pré-organizada em cima do enorme praticável e um stage manager todo irritadinho e dando chilique a todo momento.

Aquilo me chamou bastante a atenção. Algo estava errado. Com o decorrer das horas, os roadies davam seus ajustes em toda aquela parafernália sem fim. No entanto, acredito que a produção se esqueceu do lado um tanto místico que envolve Interlagos. Mesmo com o sol forte e com a metereologia afirmando que naquele domingo não teríamos previsão de chuva, nuvens negras começaram a tomar o céu da região sul da cidade de São Paulo. Minutos depois era bem visível no horizonte a forte tempestade que se encaminhava em direção do evento. E põe forte nisso! Só faltou chover canivete.

Porém, não sei porque motivos, a equipe técnica tanto da banda como da produção, não tomou nenhum providencia para tirar, cobrir ou proteger os equipamentos, que já estavam prontos para a passagem de som. Por causa desta imprudência, o que já estava atrasado, acabou ficando ainda mais. Resultado parcial: um palco que mais parecia um lago, equipamentos molhados – inclusive o pirotécnico –, e mais trabalho por vir. Afinal, para segurança de todos era preciso eliminar as poças do palco, limpar e secar os equipamentos e instrumentos para se ter o mínimo de segurança e dar continuidade ao serviço.

Resultado final: 18h, horário previsto para a banda brasileira Shadowside entrar em cena, os roadies do Iron Maiden ainda estavam terminando de arrumar os instrumentos para a passagem de som. Por isso, visando não prejudicar o cronograma e o próprio representante nacional, a produção decidiu inteligentemente, às 18h20, cancelar a participação da Shadowside alegando que eles não teriam as mínimas condições profissionais para executar uma rápida passagem de som e exibir seu repertório.

Neste mesmo tempo, só que do lado de fora do autódromo, era lindo ver aquele mar de gente caminhando alegremente pelas avenidas. Porém, nem tudo era para se comemorar. Ainda existia uma gigantesca fila que dava voltas e mais voltas para chegar aos portões de entrada. Esta demora causou um certo nervosismo na galera.

Analisando que o acesso dos fãs estava lento e muitos não conseguiriam entrar antes do inicio do show, a produção decidiu abrir mais um portão para dar maior fluxo de acesso a pista. Por isso, Rod Smallwood, lendário empresário do Maiden, e um representante da Mondo Entretenimento, vieram a público informar que o show seria atrasado em uma hora. Mesmo assim, cerca de 500 pessoas estavam do lado de fora, quando a Donzela de Ferro começou a tocar.

Com o passar do tempo, os alucinados maiden-maníacos ficavam apreensivos e o público que chegava ignorava as leis da física, naturalmente espremendo quem já estava na pista em busca de um melhor lugar para conferir de perto a performance de Bruce Dickinson & Cia.

Pouco depois das 19 horas, as luzes se apagam e a banda de abertura liderada por Lauren Harris, mais conhecida como a Filha do Homem, teve novamente a missão de abrir o show do pai Steve Harris, baixista, fundador e único integrante de todas as formações do Iron Maiden. Infelizmente, a jovem cantora, de novo, não conseguiu conquistar a galera com seu pop rock bem comercial exemplificado no álbum Calm Before The Storm. Apesar do corpo bonito, Lauren não fez valer o talento. Ela não é uma vocalista nata. Até mesmo a canadense Avril Lavigne tem mais potencia vocal do que ela. Sem contar que o guitarrista tenta ser uma cópia mal feita de Zakk Wilde. Mais queima filme ainda. Se não fosse o nepotismo descarado, Lauren não estaria ali. Sorte de quem ainda estava do lado de fora...

Passada a tortura, a galera contava cada segundo para ver, conforme prometido no ano passado, outra apresentação da Somewhere Back in Time World Tour, que tem todo o repertório focado nos clássicos discos da banda e com fortes referências cenográficas das turnês dos álbuns The Number of the Beast (1982), Powerslave (1984-85) e Somewhere in time (1986-87).

Como um tsunami, uma onda gigante de fãs alastrava-se pelo “gramado”. Por isso, em um certo momento, a galera que estava sendo esmagada, deu aquele jeitinho típico brasileiro e invadiu a área elevada que estava protegida por uns tapumes.

Eis que às 21h, o palco da Formula 1 dá passagem aos Mestres do Heavy Metal. Doctor Doctor, famosa música do UFO é executada. Era o sinal amarelo que todos queriam ouvir. Até que apagam-se as luzes, cresce aquele frisson, a ansiedade dos fãs aumenta quando começa o vídeo com os integrantes do Iron Maiden embarcando no Ed Force One e o áudio do discurso de Winston Churchill tomam o telão visivelmente danificado pela forte chuva.

Naquele momento, todas as dificuldades se tornaram meras lembranças, que serão contadas - com muito orgulho - aos amigos e familiares no futuro. Afinal, mais um espetáculo do Iron Maiden estava para começar. E que espetáculo! O inicio, como era esperado, foi com Aces High, que levantou o enlamaçado público. Na seqüência, mais dois clássicos Wrathchild e 2 Minutes to Midnight.

Antes de tocar as duas surpresas da noite, Children of the Damned e Phantom of the Opera, Bruce fez questão de pedir desculpas pelo atraso, agradeceu a presença de todos, pois aquele era uma noite especial para o Iron Maiden. Segundo o frontman, naquele momento, o público brasileiro podia se considerar ainda mais especial, pois acabavam de bater o recorde de espectadores em um show na carreira deles: 100 mil pessoas.

“Já tocamos em festivais enormes. Na Suécia, tocamos para mais de 57 mil pessoas, mas São Paulo entra para a história como o maior show que o Iron Maiden já fez na carreira com mais de 100 mil pessoas na platéia”, declarou o entusiasmado vocalista. No entanto, para organizadores, foram pouco mais de 63 mil. Depois divulgaram “míseros” 43 mil. Totalmente emocionados, o sexteto quis mostrar de todas as maneiras possíveis a sua felicidade.

É bem certo que o previsível e clássico repertório ajudou a levar o público ao delírio, mas ver um bando de coroas correndo de um lado pro outro em cima de um palco é uma sensação ainda mais gratificante.

Mostrando-se preocupado com a integridade física de seus fãs, que estavam sendo esmagados contra a grade, Bruce Dickinson solicitou que as pessoas dessem dois passos para trás. O pedido foi prontamente atendido e não voltou a ser repetido.

Wasted Years, The Rime of the Ancient Mariner, Powerslave, Run to the Hills, Fear of the Dark, Hallowed be they Name e Iron Maiden, formaram a sequência mais devastadora que eu conferi nos últimos anos. É um hit atrás do outro. Sem contra todo o requinte na troca de figurinos, planos de fundo, cenário, pirotecnia e a tão esperava entrada de Eddie em forma de múmia gigante por trás da bateria de Nicko.

Após essa sucessão de combos, merecidamente, o sexteto pede água. Como o horário inicial para o fim do espetáculo combinado com a Prefeitura de São Paulo e a Policia Militar já estava esgotado, a banda não pode ter muito tempo de descanso e não demorou para reencontrar os fãs ainda sedentos.

O retorno traz simplesmente o que é considerado como o maior clássico do grupo: The Number of the Beast. A galera vibra e canta cada vez mais alto. A magnífica The Evil That Men Do com direito a nova entrada de Eddie só que na versão ciborgue e Sanctuary determinam o grand finale. Bruce, durante a dispensável apresentação dos músicos, ainda teve tempo de prometer ao público um novo disco do Iron Maiden para o ano que vem e já deixou claro que voltará para mais uma turnê pelo Brasil, em 2011. Podem acreditar, eles vão voltar!

Foram magníficas e surreais duas horas de um espetáculo inesquecível. É praticamente impossível tirar os olhos palco. A maioria dos fãs vibra, canta, grita, mas parecem não querer piscar com medo de perder um mero detalhe.

Apesar das dificuldades enfrentadas, que lembrava as provas do extinto programa global No Limite, o público saiu extasiado do Autódromo. Também não é pra menos. É impressionante a performance que o Iron Maiden executa no palco.

Bruce Dickinson, além de cantar muito, mas muito mesmo, ele não pára um segundo. Ele corre, sobe e desce o cenário, pula, rege a platéia como um maestro. O mais impressionante é o seu exemplar preparo físico. O baixinho não cansa. Um show à parte.

Outro que não tem nem o que se falar é Steve Harris. É praticamente desnecessário tecer comentários a esta lenda viva do Heavy Metal. O cara, mesmo com três guitarras por cima, se mantém presente em uma explosão sonora única.

Dave Murray, Adrian Smith e o brincalhão Janick Gers fazem um trio de ouro. Mostram que entrosamento é importante, mas emanar energia de suas guitarras é ainda mais empolgante e extasiante.

Nicko McBrain, apesar da perca de tempo no começo de The Rime of the Ancient Mariner e a dancinha nada a ver com Bruce ao ser apresentado, tem o seu carisma. Na minha humilde opinião, ele não é um dos melhores bateristas que já vi, mas merece respeito por toda a sua história ao longo da carreira do Iron Maiden.

É impossível descrever o feedback que existe entre os seis integrantes e o seu fanático público. O Iron Maiden evidenciou porquê o grupo é um dos mais queridos pelo público brasileiro e porquê mantém uma relação e atenção tão especial por eles.

Sem contar que, o Autódromo de Interlagos não é tão inadequado para shows. O único problema é que se chover você vai se sentir em um verdadeiro Woodstock. O espaço é grande, pode receber um público extraordinário e naturalmente tem uma elevação que propicia até quem está no fundo ver o palco.

Pena, que após um espetáculo tão maravilhoso, toda aquela gente estimada entre 60 a 100 mil pessoas passaram um bom aperto na hora de ir embora. Uma saída minúscula para aquele tanto de gente é pedir por uma tragédia. Se a produção não pensou nisso, pelo menos os fãs, que não precisavam de transporte público, deveriam ter ao menos usado a cabeça e ter esperado toda a massa desesperada sair primeiro. Por sorte, não tivemos nenhum acidente grave. Apenas aqueles problemas normais de todo grande show.

Por que todo fã de Heavy Metal tem que sofrer para ver seu artista preferido? A desorganização foi tão grande que sobrou até para São Pedro. Sobrou pro santo pagar a culpa pelos inúmeros imprevistos, atrasos e etc.

Ainda bem que assistir ao Iron Maiden sempre é uma grande felicidade até para quem não gosta deles.






















EXCLUSIVO: Krisiun em Santos
Está confirmadissimo! No dia 10 de junho tem Krisiun em Santos. Mais informações em breve!

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